Aguardem a publicação do próximo texto.
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João Fernando Kassa
Acordou às sete e 35 da manhã. Deu um grito de desgraça. Já estava atrasado para a primeira aula. Entrava às sete e meia no colégio. Fez somente o indispensável e saiu voando de casa.
Mas, na rua, enquanto caminhava para o ponto de ônibus, reparou que quase todos o encaravam e de uma maneira esquisita: o padeiro, a empregada, o garotinho, a mãe desse garotinho, o motorista de ônibus ... Não devia ser o cabelo despenteado, pois ele nunca penteava mesmo. Tão bonito também não era.
Meia hora depois, cada vez mais intrigado, chegou ao colégio. O porteiro olhou embasbacadamente para ele. Não perdeu tempo: jogou a carteirinha e foi logo entrando, já que queria assistir a segunda aula. Uma faxineira, que andava por perto com uma bandeja de copinhos cheios de café, deu um berro assim que o viu e jogou tudo pra cima. Ele ficou mais preocupado ainda. O que seria?
Subiu as escadas correndo e, quando ia entrar na sala de aula, sua caneta caiu no chão. Ao se abaixar para apanhá-la, descobriu porque todo mundo olhava para ele: estava só de cuecas na parte de baixo. Tinha se esquecido de colocar as calças! Apavorado, correu para o banheiro dos homens.
E agora, o que fazer? - perguntou a si mesmo. Segundos depois, deu um grito - não muito alto - de alegria. Era dia de Educação Física e ele tinha um "short" na mochila. Colocou-o e foi para a sala.
A turma praticamente inteira riu quando viu entrar no recinto aquela figura estranha, de camisa branca (com o emblema do colégio costurado no bolso), "short", sapatos (sem as meias, pois não dera tempo de calçar) e mochila. A calça fazia parte do uniforme e certamente seria repreendido pelo professor.
Alguém disse:
- O Fluminense deixou ele maluco! ... Com essa nova derrota, ele pirou de vez! Ah, ah, ah ...
- Eu sabia que o Olaria ia ganhar! O Flu não tem time nem pra ganhar do Madureira! - gritou outro aluno.
- Renato! Toma tua prova!
A voz grave e soberana do mestre calou o resto da classe.
Oito! Havia tirado oito! Quase não acreditou.
- Perguntem pra ele se ele estudou! ... Me falaram que o desgraçado não abre o livro nem no dia da prova! - intrometeu-se mais um.
- O que você tá falando? Você é pior que ele!
A turma outra vez explodiu em gargalhada.
- Renato! - impôs-se novamente o professor - Agora que você já recebeu sua prova, se manda, porque aqui é proibido assistir aula de "short".
- Tá legal! - limitou-se a responder.
- Tchau, tricolor! - ainda ouviu alguém falar.
...
Renato esmurrava o travesseiro quando a mãe o sacudiu, dizendo autoritariamente:
- Acorda, menino! São seis e 20! Vai lavar esse rosto que você já está atrasado!
Antes de sair de casa, conferiu se vestira mesmo as calças. Quanto à nota de matemática, já sabia. E não era oito ...
Nota do autor: Fluminense, Olaria e Madureira são times de futebol da cidade do Rio de Janeiro. O primeiro tem sua sede na zona sul e é bem popular; os outros dois ficam na zona norte e não têm grandes torcidas. Tricolor é quem torce pelo Fluminense.
João Fernando Kassa
Pedrinho estava ali nas Laranjeiras, quase na divisa com o Cosme Velho, esperando um ônibus qualquer para levá-lo ao Flamengo. Loiro, olhos azuis, todo arrumadinho no uniforme de um colégio particular, relógio caro num dos pulsos, queria chegar logo em casa para ver o aparelho de "videogame" novo que o pai tinha comprado.
Pegaria o primeiro que aparecesse. Seu relógio marcava seis e 15 da tarde, horário em que não dá para se andar decentemente em muitos coletivos no Rio de Janeiro: a hora do "rush". De repente, surgiu um no meio dos carros que parecia não estar tão cheio. A turma, já no desespero, gritou:
- Olha lá!
- Sai da frente!
- Que droga! Não vai parar!
Parou. Pedrinho entrou e se encolheu no meio daquela gente pobre, humilde e sofrida. Quase esmagado, conseguiu passar a roleta. Já se arrependia de ter pego o ônibus, mas resolveu ficar na sua. E a turma continuou:
- Vai lá em casa amanhã, João?
- Não sei. Eu vou na feira com a Maria.
- Feira?! Isso é coisa de pobre, ô! ... Vai trocar o carteado por aquela mina? ... Ei, passaram a mão no meu traseiro!
Aí repararam nele. Um deles disse:
- Pergunta aí pro russo que horas é!
Todo assustadinho, temendo alguma encrenca ou mesmo ser assaltado, saiu andando para a frente, pisando nos calos alheios e imprensando quem estava perto. Deu para sair do veículo e respirou aliviado quando o viu se distanciar.
Porém, teve de voltar ao colégio: na pressa, esquecera as fitas de jogo na carteira ...
Nota do autor: Laranjeiras, Cosme Velho e Flamengo são bairros da zona sul da cidade do Rio de Janeiro.
João Fernando Kassa
A mãe mandou o garoto ao mercado perto de casa para comprar um desodorante. Como queria ela só a embalagem plástica, deu-lhe o dinheiro suficiente para adquirir um bem barato.
Ele chegou no estabelecimento e olhou, olhou e olhou. Comparou os preços por algum tempo e seguiu à risca a ordem materna: pegou um frasco cujo rótulo lembrava a Branca de Neve e os sete anões. Só que, pelo cheiro, havia um anãozinho morto ali dentro.
Foi para uma das caixas registradoras. Num descuido, a coisa foi parar na sacola de uma menina, a sua frente na fila. Percebido o engano - a mulher que ensacava os produtos até se desculpou -, se pôs a correr atrás da outra, pois já tinha pago.
- Ei garota! ... Espera! ... Espera!
A garota, que não o conhecia, devia estar pensando coisa errada e se arrancou, indo pedir proteção a um guarda num posto de gasolina próximo, que também vendia refrigerante e um "irresistível" biscoitinho de camarão (daquele tipo que dá aquela baita caganeira).
- Ei você! - o policial chamou o menino - ... Esta menina está me dizendo que você está seguindo ela. ... O que você tem a dizer?
- Mas é claro! - respondeu ele, com a língua ainda de fora - ... Eu comprei um desodorante no mercado e a mulher de lá colocou ele na sacola dela. ... Pode olhar.
- Menina, mostre a bolsa, por favor - disse a autoridade.
Realmente, o produto se encontrava na sacola.
- É este aqui? - perguntou-lhe o guarda.
- É esse mesmo! ... É uma porcaria, mas a minha mãe só quer o plástico. Olha seu guarda, olha como é ruim.
E o garoto então aplicou o desodorante no policial.
Não demorou e quem passou a ser perseguido foi ele.
Meu nome é João Fernando Kassa, tenho 43 anos de idade, sou carioca do Flamengo (bairro da zona sul da cidade do Rio de Janeiro) e atualmente estou morando em Papucaia, distrito do município de Cachoeiras de Macacu, interior do estado do Rio de Janeiro, Brasil.
Sou formado em jornalismo mas nunca exerci a profissão. Sempre gostei de escrever, tenho algumas cartas publicadas nos jornais e cheguei a editar um livro no ano de 1984.
Pretendo divulgar neste "blog" os contos que escrevi quando era jovem. Espero que gostem.